No meu primeiro dia de aula na pós graduação em Gestão de Organizações Sociais, o professor chegou animadíssimo, a despeito de ser uma manhã de sábado e da gente estar ali para dois dias de aula seguidos. Nas 16 horas em que ficamos por lá, o moço nos fez cantar uma música dos Titãs muito popular entre o povo das dinâmicas de grupo. Nos levou até o estacionamento para chutar bolas e emular aquela famosa cena de Sociedade dos Poetas Mortos. A coisa toda foi muito divertida e a turma saiu de lá feliz da vida.

Hoje, quatorze anos depois, fico aqui sentada tentando lembrar sobre o que era aquela aula. Sem sucesso. Marketing? Gestão de pessoas?

Aquele mesmo curso teve várias outras experiências interessantes. Um professor cujo conteúdo era inteiramente tirado de um único livro, inclusive os slides. Outra professora enfrentou um motim porque passou boa parte da aula reclamando que os alunos não eram de contabilidade.

O professor da primeira aula acabou sendo o docente melhor avaliado no curso, a despeito da falta de tração do que quer que ele tenha ensinado. A professora de contabilidade não voltou a dar aula para a nova turma da pós.

Professores são gatekeepers

Desde que entrei no Jardim I já acumulei 22 anos de carreira como aluna e centenas de professores. Mesmo com esse tempo todo de estrada, é difícil para mim definir o que é um professor ruim. Algo que as pesquisas na área também patinam para fazer. Sabe-se que um bom professor tem domínio do conteúdo. A Unesco (a instituição da qual os EUA saíram por determinação do Trump) estipula que um bom docente:

  • trabalha conteúdo relevante e alinhado com o currículo
  • sabe organizar o ensino de forma a dar tempo suficiente para os alunos aprenderem
  • sabe estruturar o ensino de forma a estimular os estudantes, garantir que eles recebam o feedback e orientação necessárias
  • sabe compor um ambiente adequado ao desenvolvimento das atividades, com um relacionamento de respeito mútuo entre o professor, os alunos, entre os alunos de forma organizada e segura
  • tem domínio do conteúdo, bem como articulação verbal, repertório e motivação

As pesquisas na área também mostram que é importante que o professor saiba se adaptar aos alunos e às condições de ensino. “Por conseguinte, é importante avaliar criticamente a relevância dos objetivos atuais e previstos (em termos de conteúdo, estrutura e contexto de ensino e aprendizagem) para a situação local”, indica a Unesco em seu relatório sobre o assunto.

Parece simples, mas na prática é bastante complexo. Professores são pessoas. E a situação em que eles têm que dar aula na maioria das vezes não é a ideal. Porque alunos são – olha só – pessoas também. E a sala de aula não é imune as dificuldades da vida.

Mas essencialmente o papel do professor é conferir relevância a assuntos e informações e guiar o aluno pelo exemplo. Professores são gatekeepers, curadores da experiência dos seus alunos. Nós lemos Machado de Assis porque nos dizem que é importante lê-lo. Aprendemos que a terra não é plana, que as plantas precisam do sol e que a Primeira Guerra Mundial começou por causa do assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, da Áustria.

Poderíamos, ao invés disso, aprender a fazer iogurte, a montar uma bomba caseira. São os valores e opiniões dos professores e gestores da educação que decidem que algo merece ser ensinado ou não. E portanto direcionam a atenção dos alunos.

Ideologia na sala de aula

A premissa do “Escola sem partido” é que o professor, dada sua posição de poder em sala de aula, pode submeter seus alunos a uma ideologia, suprimindo manifestações em contrário. Mas isso parte de um conceito superado de que é a educação: a de que o professor coloca informação na cabeça vazia do aluno, ou semeia no cérebro fértil, mas improdutivo, dele.

O aluno não é um vaso no qual são depositadas as crenças e informações alheias. Ele é ativo no processo de aprendizagem. Sabe-se hoje que diferentes alunos adquirem conhecimento de formas diferentes. Há o aluno que precisa repetir a exaustão um determinado exercício. Outro precisa ouvir algo e um terceiro precisa de auxílio visual.

Da mesma forma, diferentes alunos reagem de formas diferentes as crenças e vontades dos professores. E professores, como seres humanos que são, têm crenças e vontades a despeito do que possam tentar impor à sala de aula via legislação ou gritaria.

Nem sempre essas crenças têm cunho ideológico. Um professor (ou professora) pode citar um filme, um livro, um autor, um seriado em sala, o que pode (mas nem sempre) atrair a atenção do aluno. No entanto, como dito, alunos têm pensamento próprio e assistem filmes, seriados, lêem livros e gostam de autores independente da opinião dos professores. Do contrário, Machado de Assis seria o autor mais popular do país. Não é.

Outro argumento do Escola sem Partido insiste em fazer é que quando a opinião (ou ideologia) do professor difere da do aluno, este último é prejudicado. Essa ideia supõe que o que se cobra em avaliações são respostas derivadas da ideologia do professor. Isso pode acontecer? Pode. Há profissionais ruins em todo lugar.

Porém, a sala de aula não é um sistema fechado. Ela está dentro da comunidade escolar, que tem sistemas de avaliação e feedback claros. Ou seja, o aluno que considerar que sua avaliação foi injusta tem como e deve recorrer, cobrar uma reavaliação. Esse processo envolve questionar o professor e, se não obtiver um resultado adequado, recorrer à coordenação e direção da escola e, por fim, à Secretaria de Educação.

Pode ser que, no fim, o aluno ainda se sinta injustiçado. Alguém que pense que o objetivo disso tudo era decidir se algo é certo ou errado certamente achará que foi uma perda de tempo. No entanto, não. Educação é processo. O aluno que se sente injustiçado e procura as instâncias necessárias para defender seu ponto de vista aprendeu na prática o que é democracia. E que ela não é passiva.

Escola sem partido é antidemocrático

Educação é o processo. E conviver com professores que pensam diferente de nós é importante para nos formar enquanto cidadãos capazes de dialogar. Eliminar pensamentos dissonantes da sala de aula é trabalhar contra isso. É limitar o papel da educação ao repasse de conteúdos. E ignorar que mesmo aquilo que parece objetivo tem sua base ideológica.

Além disso, o Escola Sem Partido supõe, equivocadamente, que a maioria dos professores é de esquerda e favorece teorias e informações que reforçam essa posição política. Se é esse o caso, o que explica o sucesso da direita na política brasileira? Veja bem, a escola é a única instituição a qual todos os cidadãos são submetidos em algum momento da vida. Porque eles não foram “convertidos” ao marxismo?

Ao incentivar o monitoramento da ideologia do professor, o Escola sem Partido interfere na capacidade do docente de lidar com a turma e os desafios que ela representa. É importante para a educação que professor tenha liberdade em sala de aula para adaptar o ensino às circunstâncias próprias daquele grupo de alunos, como apontado pela ONU.

Essa liberdade já é tolhida por algumas tendências da gestão escolar, que prefere métodos de ensino padronizados, a despeito disso não ser o melhor para o aluno. Mas para mim, como professora, penso que o maior dano do Escola Sem Partido é dificultar o diálogo entre pais, alunos, professores e gestores, confundindo conceitos e criando um conflito desnecessário. Isso torna a vida do docente em sala de aula muito pior. E, claro, prejudica o aluno no médio e longo prazo.

 

 

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