A escola é a única instituição que temos que tolerar, queiramos ou não, em algum momento da nossa vida. É obrigatório, nos dizem. Então ainda novinhos (cada vez mais cedo) somos apresentados a toda lógica professor-aluno-avaliação.

É na escola que a gente aprende que o que se espera de nós e que isso vai pautar nosso desempenho nessa olimpíada permanente é que a vida acadêmica. Daí pra frente vamos ser bons alunos ou maus alunos. E muito disso vai nos ajudar a formar a imagem que temos de nós mesmos.

Há sete anos sou professora universitária. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi alunos dizendo que não fazem isso ou aquilo porque são ruins em matemática. Ou química. Ou biologia. Outros têm uma abordagem mais passivo-agressiva: decretam que nunca vão precisar [insira aqui o tema de aula que você mais despreza] na vida e que, portanto, é uma perda de tempo lidar com ele.

Educação é um assunto que me interessa muito. Estudei o uso da tecnologia na sala de aula no meu mestrado. E muito do que faço no jornalismo tem ligação íntima com sua função educativa.

Nesses sete anos de sala de aula li muito sobre avaliação. Também refleti muito sobre o assunto, uma vez que boa parte da dinâmica de sala de aula é pautada pela necessidade de avaliar. Testei diferentes tipos de avaliação. Aceitei trabalhos individuais e em equipe. Deixei os alunos fazerem prova com consulta. Cobrei detalhes dos textos, informações factuais, raciocínios sobre ideias e conceitos.

Passados sete anos, sabe o que descobri?

Que a gente dá importância demais para notas. E que elas dizem muito pouco sobre o que deveríamos estar ensinando/aprendendo na escola (ou universidade). E muito menos sobre o que um aluno/a é ou pode ser. E que podemos muito bem ter alunos medíocres com notas excelentes e gente brilhante que se sente um fracasso.

A nota deveria ser um a forma de dar feedback para os alunos e também para mensurar se os objetivos da disciplina foram atingidos. Parece simples. No entanto, está aí a grande dificuldade. Porque hoje se entende cada vez mais que a aprendizagem é um processo e que se desenvolve de forma diferente de aluno para aluno.

Outra dificuldade é que para medir algo é preciso definir um critério. No caso do ensino, o critério é o de que o conteúdo foi dado, o aluno adquiriu uma “competência” ou um objetivo foi atingido. Mas, sejamos sinceros, não está sempre claro se nós, professores e demais profissionais da educação, estamos confiantes de que o objetivo que definimos para uma disciplina, curso ou mesmo concepção de currículo é realmente o que vai dar conta dessa missão gigantesca que é ajudar na formação de cidadãos.

Quer um exemplo? Digamos que estamos trabalhando com operações básicas. 1 + 1 é igual a 2, certo? E 3 -1 é igual a 2. E 48÷2(9+3)? Digamos que um aluno divida 48 por 2 para então multiplicar por 12 e outro multiplique 2 por 12 e daí divida 48 por 24. Quem está certo? Qual é o objetivo aqui? Chegar no resultado certo ou fazer com que o aluno perceba qual o mecanismo da expressão e como ela funciona?

Nossa legislação disciplina a educação a partir de uma visão excessivamente conteudista, que vê a escola como um lugar que tem uma lista de “assuntos” que deverão ser repassados ao aluno e como se o conteúdo, por si só, desse conta de elevar o espírito dessa pessoa que, de outra forma, estaria perdida.

Só que, a despeito da universalização do acesso à escola no Brasil, o aumento da média de escolaridade no país e do número de pessoas com formação universitária, nos parece que ainda temos pessoas diplomadas, mas pouco equipadas para lidar com os desafios de hoje.

Nessa discussão, encontrei nas palavras de Neil Postman um caminho a seguir:

“In the early 1960s, an interviewer was trying to get Ernest Hemingway to identify the characteristics required for a person to be a “great writer.” As the interviewer offered a list of various possibilities, Hemingway disparaged each in sequence. Finally, frustrated, the interviewer asked, “Isn’t there any one essential ingredient that you can identify?” Hemingway replied, “Yes, there is. In order to be a great writer a person must have a built-in, shockproof crap detector.” It seems to us that, in his response, Hemingway identified an essential survival strategy and the essential function of the schools in today’s world.

One way of looking at the history of the human group is that it has been a continuing struggle against the veneration of “crap.” Our intellectual history is a chronicle of the anguish and suffering of men who tried to help their contemporaries see that some part of their fondest beliefs were misconceptions, faulty assumptions, superstitions, and even outright lies. The mileposts along the road of our intellectual development signal those points at which some person developed a new perspective, a new meaning, or a new metaphor. We have in mind a new education that would set out to cultivate just such people — experts at “crap detecting.””

(from “Teaching As a Subversive Activity: A No-Holds-Barred Assault on Outdated Teaching Methods-with Dramatic and Practical Proposals on How Education Can Be Made Relevant to Today’s World” by Neil Postman)

Postman fala sobre a educação como algo que deveria nos ajudar a desenvolver um detector de bobagens. Em português mais elegante podemos dizer que queremos formar o tal “cidadão crítico”. Esse termo, inclusive, aparece vez ou outra num documento sobre educação, mas sempre atrelado a uma concepção do que é ser crítico e de qual conteúdo é necessário para se chegar lá, porque mesmo na tentativa de ser moderna, a educação ainda cai numa concepção antiquada do que é educar: a de que é preciso depositar conteúdo na cabeça vazia do aluno (ou, numa analogia mais palatável, a de que temos que semear no solo fértil que um cérebro novo representa).

Para Postman, no entanto, isso está mais ligado à ideia de que a educação deveria estar mais preocupada com o método de pensamento em si (ou oS métodoS, uma vez que se sabe hoje que há diferentes formas de se processar informação), do que com o que o alimenta.

Explico: Ela deveria ter como foco o estímulo à capacidade de chegar à teoria e de colocá-la à prova, independente de qual seja essa teoria. Porque ele entende que o que deixa alguém melhor equipado para navegar esse mundo é justamente ser capaz de pensar por conta própria.

Só que essa habilidade, de dialogar com uma ideia sistematicamente desafiá-la e questioná-la talvez pareça simplória demais para ocupar as páginas e páginas de documentos sobre como melhorar a educação por aí. No entanto, é algo que deveria permear e nortear as ações da escola o tempo todo.

No entanto, o que se vê na rotina escolar é um processo organizado todo em torno da avaliação. O conteúdo que vai “cair na prova”, o calendário que é determinado pela data do teste, da entrega do trabalho, a necessidade de se cumprir o prazo de lançamento de nota.

Uma vez que é a “data da prova” que comanda toda a dinâmica escolar, é natural que ela determine também o que é que é “cumprir os objetivos do currículo”, no caso, o comportamento e resposta do aluno que vai valer, pelo menos, a média e, portanto, garantir a aprovação. No exemplo lá de cima, da operação matemática, o que vale é chegar na resposta 2 porque é a que o professor considera certa e pronto.

Esse entendimento elimina (ou pelo menos reduz) a serendipidade do processo de aprendizagem. Explico: serendipidade é um termo usado para definir aquelas descobertas que acontecem por “acaso”, mas que são resultado de um caminho não planejado, mas que culminou em algo.

A história da humanidade está cheia de exemplos de descobertas e criações que foram resultado de processos cujo objetivo tinha pouco a ver com eles. O homem não foi à Lua para criar a caneta esferográfica, mas eis que uma das conquistas da corrida espacial foi a criação dela.

O problema é que quando o processo de ensino se move em torno da avaliação é isso que determina o foco do trabalho do aluno e do professor. Então o docente gasta um tempo precioso bolando avaliações mirabolantes e o estudante gasta toda sua energia dando conta daquilo que ele acha que o professor espera dele (e que não necessariamente é o tal conteúdo).

Mas daí o povo pensa: isso é um problema das ciências humanas, porque nas exatas dá para saber exatamente o que cobrar, o que se quer ensinar. Será mesmo? Pegue o ensino de programação de computadores. Uma das formas de avaliar o aluno é com desafios: crie um programa que resolva o jogo de escadas e cobras com o menor número de jogadas de dados possível. Se o aluno conseguir, beleza, objetivo cumprido!

Não é bem assim. Como saber qual aluno solucionou de fato o desafio do que só copiou? E se o aluno procurou soluções para partes do desafio, ele está errado? E o risco de reprovar o estudante que encontrou diferentes soluções e, a partir delas, montou uma resposta e aprovar o que pagou alguém para fazer para ele?

Melhor ainda: será que os professores deveriam gastar um tempo escasso com isso ao invés de usá-lo para ter mais contato com os alunos?

O fato é que não dá para escapar da dimensão humana da educação. A escola é, essencialmente, um espaço de relacionamento. E quando a dinâmica aluno-professor é pautada pela avaliação tradicional essa relação é fadada a ser um exercício de poder que coloca o aluno na defensiva. E essa é uma postura que não beneficia o aprendizado.

Pior ainda, nessa dinâmica, o aluno aprende algo que é terrível para a vida dele: que ele não pode errar. Porque a avaliação tradicional recompensa o acerto e pune o erro. No entanto, errar e aprender com o erro é algo fundamental para a evolução intelectual das pessoas. E, mais ainda, reconhecer que estamos errados é parte do processo de amadurecimento.

Mas quando o foco do aluno está a nota, ele se coloca numa posição defensiva que muitas vezes segue para outras áreas da vida dele. Pense em quantas pessoas insistem em concepções equivocadas só porque não conseguem reconhecer que estão erradas?

Não sei nem como quantificar as vezes perdi um tempo precioso discutindo 0,2 ou 0,5 na nota de uma prova ou trabalho e percebi que para o aluno o processo de raciocínio que o exercício propunha era irrelevante porque ele estava mais preocupado com a nota e o que ela representa. Isso é particularmente forte no ensino superior, quando a nota determina custos extras (ter que pagar para fazer uma DP, por exemplo), a perda da bolsa ou financiamento ou mesmo o fim da chance de se conseguir uma vaga no intercâmbio ou projeto.

Qual a solução? Não sei. Mas acho importante que a gente discuta o assunto e coloque em perspectiva a importância que damos para determinadas métricas. E principalmente, precisamos parar de dar valor a coisas que são irrelevantes na educação.

Se precisamos melhorar o ensino, não é com novas metodologias que são pensadas a despeito do conteúdo (como se desse pra aplicar uma metodologia universal a toda e qualquer situação), nem com wifi mais rápido, tablets, computadores ou dinâmicas de grupo. A educação melhora quando as pessoas envolvidas com ela são mais bem qualificadas. E se sentem amparadas no difícil trabalho de acompanhar e promover o amadurecimento intelectual de alguém. O resto é perfumaria.

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