Eu sinto um tédio imenso quando ouço que “o jornalismo está em crise”. Isso porque, em geral, o interlocutor vai entrar numas de falar que “os jornais estão acabando”, que “qualquer um pode produzir jornalismo” e que “jornalismo não dá dinheiro” ou outras generalizações tolas.

Esse texto não é sobre nada disso. É sobre o jornalismo e sua função social, que é a de informar cidadãos para que eles tomem decisões embasadas. E sobre algumas coisas que ameaçam essa finalidade.

  1. Falta coragem. Jornalismo e reportagem são atividades de risco. Se você fizer direitinho, vai incomodar, vai provocar, vai atrapalhar. Acredite, ninguém fica feliz quando você revela um esquema de desvio de dinheiro público. Nem denuncia o abuso da autoridade de alguém ou mostra o desrespeito ao consumidor por uma empresa.
    Na onda da tal crise do jornalismo (a econômica) as empresas se tornaram mais fracas, mais covardes e os jornalistas também. Especialmente no dia a dia. Já notou a proliferação do termo “polêmica” nas manchetes. O membro do governo federal comemora o assassinato de pessoas e o veículo lasca um “frase polêmica faz fulano deixar o governo”. Sério?
    Não se trata de ser pró-Temer ou Fora Temer. Se trata de dar nome aos bois, de tratar fatos como fatos (num país democrático um representante não pode comemorar a morte de cidadãos, sejam eles quem for. Ponto).
    O trabalho jornalístico precisa poder dizer as coisas claramente sempre que isso for possível (e solidamente calcado em apuração precisa, documentação, checagem e tudo mais).
  2. Muita opinião, pouca informação. Essa história de que o veículo TEM QUE se declarar isso ou aquilo ou ser a voz disso ou daquilo saiu de controle, gente. Opinião, como dizem, é que nem bunda: todo mundo tem. Ah, mas você é direita libertária esquizofrênica ou esquerda caviar socialista. Grandiscoisas..
    Tá, legal que você queira ser sincero com o teu público. Mas o que as pessoas precisam (e tá aí a importância do jornalismo) é de informação. Informação de qualidade. E informação é um negócio do qual não dá para fugir. Se um homem matou uma mulher e culpou as mulheres tem alguma coisa a ver o crime com o gênero da vítima, né não? Seja você o que for.
    Então faça tua listinha do que você defende, mas lembre que no fim do dia a informação é que é relevante, a sua opinião, não. Aliás, já que você tá nisso, pare de mimimi e comece a trabalhar em prol do interesse público.
  3. A extinção dos velhos nas redações: entrar numa redação hoje é como ver os calouros numa universidade no início do ano. Parece que aquele grupo de pessoas fica cada ano mais jovem. Mas na faculdade isso é um reflexo do fato de que estamos ficando mais velhos a cada ano que passa (enquanto os calouros continuam tendo 17/18 anos, como sempre)
    Nas redações, os profissionais experientes, com mais de 15/20 anos de profissão vão sendo lentamente colocados para fora. Seja pela remuneração baixíssima, seja pela rotina desgastante ou pela falta de reconhecimento ou mesmo respeito.
    Na ponta do lápis, mesmo sem receber aumento real o jornalista com mais de 10 anos de praça é um profissional caro porque há dispositivos que acabam permitindo pequenos acréscimos na remuneração (inclusive dispositivos que já foram extintos, mas que os contratados mais antigos ainda usufruem).
    Além disso, mesmo em redações em que existe plano de carreira, é raro que um jornalista tenha verdadeira ascensão financeira enquanto permanece na função de repórter. Isso sem falar no fato de dificilmente um profissional sênior deixar a escala de plantões (que é um negócio que eventualmente perde a graça quando você passa dos 35 anos).
    Mas por que se preocupar com a ausência de gente mais velha nos jornais? Porque é parte do processo de formação do jornalista amadurecer (sim, claro, envelhecer não é sinônimo de amadurecer, como alguns jornalistas da ativa nos provam diariamente), porque ter colegas mais experientes é ter também bons professores e porque ter vivido algo faz toda a diferença ao cobrir o “desenrolar da História”.
    A ausência de “velhos” é também mais um sinal da falta de diversidade nas redações. Como se sabe, a diversidade ajuda o jornalismo a ver de diferentes ângulos uma mesma situação.
    Mas o pior desse fenômeno é o seguinte: as redações estão deixando de ser um ambiente de formação. Contrata-se jovens não porque eles “lidam melhor com a tecnologia”, “sabem dialogar com um público mais jovem” ou algo assim, e sim porque eles são baratos. É isso. Quando se tornarem caros (e a diferença entre caro e barato é muito pequena) eles serão também demitidos. Por fim, jornais adoram recém formados porque gente com mais experiência costuma ser mais confiante e não aderir prontamente à filosofia do veículos. Chato, né?
  4. A cultura do “presentinho”. A pessoa mal entrou na faculdade de jornalismo e já quer saber como ganhar ingresso para show, convite para festa. O cara é jornalista num grande veículo, mas passa o carão de pedir brindezinho para a assessoria de um ou outro entrevistado. Às vezes é uma agenda, um pen drive, um almoço gratuito.
    Ou o cara vai no restaurante-da-moda e deixa o crachá do jornal bem à vista pro caso do pessoal resolver dar um desconto, quiçá a refeição inteira de brinde.
    Claro, todo mundo adora um presente. Mas por que exatamente jornalista pode pedir ingresso grátis?
    Quando comecei minha carreira também achava muito legal essa história de ganhar coisas de graça. Mas daí aquilo começou a me incomodar,sabe? Não é meio humilhante o cara que é um profissional estabelecido ficar implorando por um ingresso? (E sim, já vi muita gente implorando ingresso para assessoria).
    Claro, também já ouvi muita gente dizendo que é um poço de moralidade e que “não porque me deram o ingresso, a passagem, o pen drive, o trambolho qualquer que vou falar bem do cliente dele (o assessor)”. Mas se você pedir o brinde e depois, na sua apuração super isenta chegar a conclusão de que o produto é bom, a que o assessor (ou o cliente do assessor) vai atribuir a sua opinião: a um trabalho bem feito ou ao presentinho? E sim, isso é relevante, porque tudo que o jornalista profissional tem é sua ética de trabalho.
    Mas o que me jogou de fato no time dos chatos-contra-os-brindes (onde tem um time de chatos lá estou eu) foi o seguinte: se você fosse transparente com seu leitor, que imagem o leitor teria se você explicasse no texto que está escrevendo sobre o show porque ganhou o ingresso depois de ligar para o assessor e pedir?
    O mais estranho é que essa é uma prática tão enraizada que ninguém questiona. Ninguém discute. Só rola, no máximo, um “Ué, que mal tem?”.
    Claro, tem médico que ganha brinde, professor que escolhe livro porque a editora manda a coleção de graça para ele, vendedor que promove o produto que dá melhor comissão, mas pro cliente, paciente, público nada disso melhora o atendimento, né não?
  5. Jornalismo elitizado. Jornalismo não dá dinheiro, você sabia? Tá em todo lugar. Tem até página de Facebook mantida por jornalista pra falar isso. Não importa que profissão nenhuma “dê” dinheiro, ainda mais no início da carreira, o discurso do jornalisma-pobre-de-marré-deci chegou e não vai embora nunca mais.
    Ok, tudo muito lindo, muito engraçado, mas o resultado? Quantos pobres você conhece que trabalhem em redação? Quantos chegam na faculdade de jornalismo e sobrevivem a ela?
    Certo, o cara é pobre (gente, eu to falando pobre, do tipo que tem renda familiar per capita até meio salário mínimo, que vai ser o primeiro da família a ter diploma, que trabalha para pagar a facu, que leva lanche para aula porque não tem grana para a coxinha superfaturada da cantina. O cara que mora na perifa, que pega três busão para chegar em qualquer lugar. Não tô falando pobre ah-não-posso-comprar-o-novo-iPhone-mimimimi. Entendido?), faz faculdade a duras penas e se forma. Beleza. Aí o jornalão só contrata quem faz o programa trainee que dura seis meses, não paga nada e é em tempo integral. O cara que tem que ajudar nas despesas em casa, que tem dívida do Fies para pagar vai poder fazer? Claro que não. (Tá, se tem uma coisa boa da crise econômica é que os programas trainees estão acabando).
    “Ah, mas tem que ter cota nas redações agora?”. Sim, querido. Tem. Porque jornalismo é um trampo que deve atender a sociedade. E a sociedade é pobre, é rica, é alta e baixa, gorda, magra, tem ensino superior ou mal sabe ler e todo esse povo merece ser informado. Só que as redações estão cheias de gente classe média branquinha, lindinha que mal anda de ônibus, que acha que meta de vida é “se jogar no mundo porque viajar muda a roupa da alma” (ou algo igualmente motivacional) e que acha o máximo fazer pauta do tipo “repórter passa uma noite na favela e sobrevive para contar como foi”.
    Olha, não me levem a mal. Sou classe média. Não ando de ônibus há eras. Sou uma pessoa mimada e privilegiada. Então não to apontando o dedo (só) pra cara dos outros. Estou apontando para a minha. Porque é muita arrogância alguém que não vive uma realidade querer julgar ela. Nós somos paternalistas e para nós é fácil relevar as dificuldades dos outros porque elas não nos afetam no dia a dia.
    Sabe uma coisa que me espantou no Washington Post? Eles têm setorista de pobreza. O New York Times também. Não conheço nenhum jornal brasileiro que tenha setorista de pobreza (se souberem, me avisem). Tem de agronegócio, de time de futebol, de câmara municipal, mas pobre? Não, pobre aparece no noticiário quando acontece uma tragédia, nos artigos do tipo “pobre, mas limpinho” ou “é pobre, mas toca a vida com dignidade”, para servir de exemplo de como dá para “se dar bem na vida mesmo nascendo pobre”. É ou não é?
    O Brasil tem 26 milhões de crianças e adolescente na pobreza e extrema pobreza. Na era algo que merecia uma cobertura especializada?
  6. A cultura do clique a qualquer preço. Já falei mais longamente sobre o assunto nesse texto aqui, mas a lógica de financiamento de veículos jornalísticos pela receita de publicidade online é perversa e dá valor a conteúdo de má qualidade feito só para “viralizar”. No fim, o leitor dos portais gratuitos acaba sendo tratado como o Homer Simpson, um idiota que só quer saber de rosquinhas e não tem pensamentos complexos. E isso cria um monte de ruído que favorece a disseminação de má informação e boatos. Torna a fronteira entre bons veículos, bom conteúdo e lixo muito confusa e o trabalho de leitor de perceber as sutilezas da informação que consome mais complexo.
  7. Falta de respeito ao leitor. Leitor é um idiota que só serve para fazer comentário sem noção. Curtiu? Não, né? Porque de repente você é leitor e não é um idiota (ou acha que não, no que sempre podemos estar enganados, não? Mas enfim). Mas o caso é que se você é jornalista e acha que leitores são idiotas, o seu trabalho não faz o menor sentido, sabe? Porque o jornalista existe para servir o público, atender ao interesse público, informar as pessoas, contar as histórias delas. E quem é que quer trabalhar pra gente que não respeita?
    Não, queridos, os leitores não são idiotas. Mas nós os tratamos assim. Porque a gente faz conteúdo ruim (todos nós, muito embora alguns sejam mais competentes no assunto que outros). Usamos fontes “anônimas” não checadas, boatos, senso comum como se fosse informação. E ficamos chateados quando o povo não entende o que a gente escreveu. Ué, mas teu trabalho é justamente saber fazer as pessoas entenderem. Se não entenderam, VOCÊ FALHOU. SACOU??
    É como o médico culpar o paciente por não reagir ao tratamento. Oras, querido, dê teus pulinhos que a responsabilidade é tua.
    Segredo de fonte é um negócio que serve só para proteger a fonte, não o trabalho meia boca, sem apuração e nas coxas do pseudo repórter que publica qualquer coisa.
  8. Falta de respeito com o leitor 2. Ah, você quer assinar um veículo. Daí no site tem um monte de fotos e texto para dizer que aquela é a melhor decisão da sua vida — não porque você vai receber conteúdo de qualidade — mas sim porque você vai ganhar UMA MOCHILA DE BRINDE. Sério, gente de jornal, vocês não se ajudam, né?
    Ah, e dá para fazer um mês de teste drive GRÁTIS. Só que quando a degustação acaba o coitado do suposto assinante não consegue cancelar o débito no cartão de crédito nem com promessa.
    Isso quando o teste drive passa e o leitor não consegue receber o jornal ou acessar o site nenhuma vez porque, bem, sabe-se lá.
    Não gente, não dá para ser assim.
  9. A cultura do “não existe nada de bom”. O jornalismo brasileiro é realmente complicado, cheio de empresas com sérios problemas de conflito de interesse e jornalistas com falhas graves de formação. Mas não dá para desprezar o jornalismo como um todo no país. Aliás, não dá para desprezar TODO CONTEÚDO de um veículo porque você acha que ele é coxinha, petralha etc.
    Essa ideia de que tudo é ruim, juntamente com a adesão só a veículos de cunho ideológico (e que falam só o que a gente quer ouvir) é péssima para a democracia como um todo. A quem serve essa demonização da imprensa?
    A melhor forma de julgar o jornalismo é peça a peça. Julguemos as reportagens pelos que ela apresentam, não pelo nome do repórter, pela suposta ideologia do veículos. Olhemos objetivamente para: as informações apresentadas, a origem dessas informações, a forma como o repórter as tratou e qual leitura ele fez dos fatos. Veja os entrevistados ouvidos, as credenciais, a relevância da pessoa para o assunto.
    Vamos julgar o jornalismo por ele mesmo? Que tal?
  10. Falta de responsabilidade do leitor. Eu fiz a besteira de entrar o grupo do whatsapp do Conselho de Segurança do meu bairro. Meu Deus, nunca vi tanta desinformação junta. Se fosse só pelo grupo eu já teria acreditado: que sofreríamos uma invasão do exército bolivariano, que qualquer jovem parado num parque é uma ameaça à segurança pública, que se eu for sequestrada e digitar minha senha ao contrário no caixa eletrônico a OTAN vai vir me resgatar, que se eu receber uma mensagem no whatsapp e responder o PCC vai me matar e por aí vai.
    A questão é que nós somos responsáveis pela dieta de informação que consumimos. Recebeu uma informação, que tal conferir antes de repassar? Um texto encaixa direitinho com todo o teu sistema de crenças? Não é bom demais pra ser verdade? Será que é mesmo?
    Mas não, a gente tem o ego tão frágil. Basta a possibilidade de estarmos errados que pronto, nosso mundo desaba. Será que não poderíamos ser melhores que isso?
    Ou a gente precisa ficar auto afirmando nossas crenças exaustivamente. E dá-lhe compartilhar pesquisa “científica” de cunho duvidoso que diz que quem bebe é mais inteligente, que viajar cura a diabetes, que quem acorda tarde é mais feliz (isso é verdade, tenho certeza), que ter cachorro é melhor que ter gato (ou vice-versa).
    Se os teus valores são tão fraquinhos assim que um link de Facebook destrói, talvez seja o caso de você revê-los, não?
    Sabe, não há mal nenhum em estar errado. Melhor ainda é reconhecer o erro e mudar de opinião. Prometo pra você que não arranca pedaço.
    O mundo está cheio de informação à disposição de todo mundo. O teu trabalho é selecionar o que é boa informação do que não. É confrontar dados novos com ideias antigas. É questionar sempre.
    Isso não é ser chato. É ser responsável, cidadão, adulto, parte útil da sociedade. Não adianta ficar culpando a mídia por tudo. No fim, a responsabilidade é sua.
     Você não é um inválido à mercê do Partido da Mídia Golpista. Só que você precisa fazer a sua parte.
Categories: jornalismo manchete

Deixe uma resposta