Em 2010, quando tive a oportunidade de fazer um estágio no jornal Washington Post, ouvi pela primeira vez um termo frequente na cobertura de política americana: buzzword, aquelas palavras que, de repente, se tornam muito comuns no vocabulário da discussão pública.

A buzzword não serve para explicar nada. Mas pra disseminar uma ideia quase sempre de forma superficial. Foi assim com o Obamacare, termo cunhado pelos republicanos para combater o esforço do presidente Barack Obama de aprovar o Affordable Care Act, projeto que tentava universalizar a cobertura de saúde nos EUA.

Ao personalizar o assunto (Obama+care), os republicanos tiraram o foco do problema a ser enfrentado (o de que a cobertura de saúde no país é cara e deixa muitos americanos falidos) e transformaram o debate numa briga entre posições políticas.

Obamacare: o problema é o presidente, e não a falta de atendimento médico #sqn

O reinado das buzzwords ganhou força vitaminado pelo “24-hour news cycle”, uma invenção da CNN e seu império de notícias transmitidas dia a dia, 24 horas, sem parar. Para manter um negócio desses no ar, a empresa de comunicação (e bote aí nessa conta não só a CNN, mas outros negócios como o da brasileira BandNews FM — em 20 minutos tudo pode mudar) tem que encher uma quantidade considerável de espaço com notícia. O dia todo. Todos os dias.

Essa imposição de espaço [praticamente] ilimitado força uma flexibilização do próprio conceito de notícia e de jornalismo. Reportar é, em essência, escolher. Mas se espaço não é problema, o sagrado exercício da edição é colocado de lado.

Economia da atenção

Trump hackeou a mídia americana

Pode parecer uma boa ideia que exista menos edição e mais conteúdo no jornalismo em geral. Mas não é. O tempo é um recurso limitado. É por isso que parte importante do trabalho da imprensa é justamente o de selecionar o que merece, ou não, essa atenção.

Deixar de fazer isso prejudica a capacidade que o leitor vai ter de ver a importância da informação e de aprender com ela, como bem observou Nordenson no Columbia Journalism Review.

Acquiring new information requires particularly focused attention, which includes the ability to ignore distractions. In order to absorb the information contained in a CNN newscast, for example, we must not only direct our attention to the person talking, but also filter out the running headlines, news updates, and financial ticker on the lower part of the screen. Torkel Klingberg, a professor of cognitive neuroscience at Karolinska Institute in Sweden and author of The Overflowing Brain, puts it simply: “If we do not focus our attention on something, we will not remember it.” In other words, attention is a critical component of learning.
(Overload! Journalism’s battle for relevance in an age of too much information.Bree Nordenson, Columbia Journalism Review)

Em 2015, a jornalista de dados do New York Times, Tiff Fehr, num artigo sobre o futuro do jornalismo no Nieman Lab, apontou uma das principais falhas da imprensa em dar conta desse desafio. Para Fehr, ignorando os riscos de aumentar a quantidade de informação que inunda o dia a dia do público, a imprensa passou a investir em estratégias de atração da audiência que surfam no efeito viral das buzzwords, que exploram a reação da própria internet a conteúdo, “explicando a internet para a internet”.

A relação íntima e incestuosa entre imprensa e as buzzwords chegou a um limite preocupante este ano, com a ascendência do candidato republicano à presidente americana, Donald Trump. Em artigo no portal fivethirtyeight, Nate Silver analisou como Trump “hackeou” a mídia ao garantir uma cobertura desproporcional ao usar grosserias, preconceito e entretenimento.

“For all the recent debate about what responsibility the media bears for Trump’s rise to the top of the Republican Party’s nomination race, there hasn’t been a lot of evidence presented on how the media has actually covered the campaign. So I scoured through more than nine months of headlines since Trump’s presidential bid began.

The Christie endorsement, it turns out, is emblematic of a larger pattern: Trump has been able to disrupt the news pretty much any time he wants, whether by being newsworthy, offensive, salacious or entertaining. The media has almost always played along.”
(How Trump hacked the media. Nate Silver. Fivethirtyeight)

Na prática, o que Trump fez, segundo Silver, foi evitar os debates mais complexos ao forçar a imprensa a abordar a superficialidade de seus comentários ultrajantes. Também suplantou a atenção que seria dedicada a outros candidatos ao ganhar mais tempo na cobertura.

Olhe para o outro lado

Estamos distraídos ou exaustos?

Na crise brasileira, a lógica do excesso pautou veículos tradicionais e ideológicos, contribuindo para uma desinformação geral. Uma pesquisa realizada pelo Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da USP e noticiada pela BBC apontou que, na semana do impeachment, três de cinco matérias mais compartilhadas no Facebook eram falsas.

A circulação de boatos é grave e não foi provocada pela imprensa. Mas ela contribuiu com o problema ao priorizar quantidade em detrimento de qualidade. UOL, O Globo, e jornais regionais como a Gazeta do Povo e o Zero Hora incluíram na pauta da cobertura da votação matérias sobre “memes do impeachment”, entre outros exemplos do jornalismo que “explica a internet para a internet”.

Os sites de veículos tradicionais fazem isso para surfar na onda das clickbait, ou seja, apostam na conquista de clicks a qualquer preço. Não se trata de uma opção voluntária. Essas empresas operam numa lógica que vive quase que só do dinheiro de publicidade. Com a receita da publicidade dos produtos impressos naufragando eles precisam focar no aumento exponencial da audiência na web para angariar dinheiro com a publicidade online.

Nessa lógica, quanto mais publicar, melhor, uma vez que cada matéria que entrar no ar traz um pouquinho de audiência (e exibe alguns anúncios), numa versão jornalística do ditado: de grão em grão a galinha enche o papo. E se, entre esse monte de conteúdo novo o jornal emplacar um ou outro que “viralize”, melhor ainda.


O jornalista brasileiro Ricardo Kotscho ficou conhecido como o “repórter pipoqueiro” por consolidar a tradição de investir em histórias pouco óbvias em grandes acontecimentos. Ele procurava um ângulo diferente, uma perspectiva nova, o que acabava encontrando em personagens marginais.

Mas não é só pra encontrar o que é peculiar que essa necessidade de olhar “para o outro lado” se faz premente: às vezes serve pros jornalistas verem aquilo que querem esconder de nós. Às vezes quem detém o poder, tal como um mágico, quer nos entreter com a capa brilhante enquanto a pomba surge de outro lugar para ser retirada de dentro da cartola.

Por isso é importante que, para manter sua função, o jornalismo não se deixe enganar e fique atento o tempo todo, uma tarefa que não é fácil, ainda mais dada a redução drástica do número de repórteres nas grandes redações do país.

Veja a conta dos passaralhos em http://passaralhos.voltdata.info/graficos

E o que o impeachment tem a ver com isso?

Ah, então, agora chegamos onde queríamos chegar. A crise política que culminou com o processo, ainda em andamento, do impeachment da presidente Dilma Roussef (PT) tem tudo a ver com essa história toda. Mas não só ela. Para entender isso, temos que nos afastar do ponto específico em que estamos e olhar para os últimos 20 anos:

Presidentes do Brasil nos últimos 20 anos reunidos na viagem para a África, para a despedida de Nelson Mandela.

Nenhuma das pessoas na foto acima teve um governo livre de escândalos. Sarney enfrentou inclusive a revelação dos nomes das empreiteiras vencedoras da licitação para a construção da Ferrovia Norte-Sul antes do anúncio do resultado. Collor deixou a presidência após enfrentar um processo de impeachment por seu envolvimento numa série de escândalos que incluíram a revelação de que sua casa em Brasília, a mansão Casa da Dinda, teve a reforma milionária do jardim bancada pelo esquema PC Farias. FHC enfrentou o escândalo da compra de votos para a aprovação da reforma constitucional que permitiu a reeleição. Lula teve o mensalão. E Dilma enfrenta a Lava Jato.

O que muitos dos escândalos políticos dos últimos 20 anos têm em comum é sua relação com a forma como o processo eleitoral brasileiro funciona. Desde a década de 1990, a legislação eleitoral foi mudando para conter práticas desleais na disputa por cargos eletivos. Foram proibidos shows, distribuição de brindes, os famosos bocas-livres. O registro e acompanhamento dos gastos de campanha também se tornaram mais transparentes. Hoje é possível saber, direto no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pra onde foram cada um dos bilhões gastos nas últimas eleições.

Essas mudanças todas, no entanto, não acabaram com práticas desleais na disputa eleitoral. Elas só jogaram tudo isso para os tais “caixas dois”, ou seja, o dinheiro que circula nas campanhas, mas que não é contabilizado. É esse caixa que alimenta práticas ilegais como a distribuição de bens e brindes (gasolina, dentaduras, cadeiras de roda, tijolos etc) em troca de votos, a realização de jantares e almoços que são, supostamente, por adesão, mas na prática são boca livre, pagamento de pessoas para colocar placas de apoio ao candidato em casas, comércios e adesivos em carros. A lista é interminável.

Então, apesar da legislação ter sido endurecida, situações que deveriam ter ficado no passado ainda são parte importante do processo eleitoral, como a compra de votos. Em 2014 o TSE encomendou uma pesquisa sobre o assunto. O resultado:

A pesquisa encomendada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as Eleições 2014 mostra que a compra e venda de votos ainda é uma realidade no Brasil, uma vez que pelo menos 28% dos entrevistados revelou ter conhecimento ou testemunhado essa prática ilegal. A pesquisa foi realizada pela empresa Checon Pesquisa/Borghi e ouviu quase dois mil eleitores de 18 a 60 anos em sete capitais, incluindo o Distrito Federal, de todas as regiões brasileiras e das classes sociais A, B, C e D.

Mas há algo ainda mais perverso no processo eleitoral e que é alimentado pelos caixas dois: a compra de apoio político. Pense bem: o Brasil tem 8.515.767,049 km2 de extensão territorial e uma população de 200,4 milhões de pessoas, das quais 146,5 milhões são eleitores. A logística de uma campanha eleitoral é complexa e compartimentada. Como é impossível um candidato à presidência percorrer o país todo o tempo todo, ele precisa de representantes políticos em todo lugar e isso custa MUITO, MUITO caro.

Some a isso o fato da campanha eleitoral oficial (aquele período em que é permitido fazer propaganda) ser muito curto — este ano vai ser de apenas 45 dias, e você tem uma receita que valoriza o papel do cacique político.

Curiosamente a redução do período de campanha foi uma das propostas que visavam reduzir o uso de caixa dois no processo eleitoral.

Se no papel a campanha deveria acontecer só nesse período, na prática a campanha eleitoral é permanente e cada ciclo começa com as eleições municipais, que é quando os caciques nacionais tentam garantir seus representantes nos 5 570 municípios do país. É aí que o dinheiro desviado de grandes obras, de contratos milionários tanto no governo federal quanto nos governos estaduais vai parar, financiando campanhas e amealhando apoio.

Esse suporte não é só construído durante a campanha eleitoral. Ele é consolidado mês a mês, com a negociação de transferência de verbas para os municípios, garantindo ao prefeito que está no cargo o capital político necessário para se reeleger ou garantir um sucessor. O caixa dois eleitoral também financia uma mídia que é extremamente dependente de apoio político e financeiro, especialmente nas cidades menores, viabilizando rompimentos políticos sempre que isso se torna necessário ou confirmando a liderança do cacique local.


A grande mídia foca na cobertura da política nacional, mas é nos municípios que o monstro da corrupção eleitoral é alimentado.

Segundo a Associação Nacional de Jornais, o Brasil tem 722 veículos impressos, um número absurdamente pequeno para um país do tamanho do nosso. Como os jornais são em tão pequeno número, não há quase competição nos mercados regionais e as redações estão cada vez menores, sobra muito pouco recurso para dar atenção às disputas eleitorais nos municípios. Mesmo em cidades grandes, como Curitiba, por exemplo, é improvável que os veículos locais acompanhem em detalhes todas as candidaturas.

A redução do número de repórteres nas redações deve acabar, inclusive, com os setoristas de candidatos, ou seja, aqueles profissionais que ficavam dedicados a acompanhar um único concorrente do início ao fim do pleito. E se há menos gente olhando, fica muito mais difícil impedir que o dinheiro que corre na ilegalidade garanta o sucesso de uma ou outra campanha.

“Sempre que as pessoas estão bem informadas podemos confiar elas a seu próprio governo”, Thomas Jefferson — 1789

Ou seja, enquanto as redações correm atrás dos memes do impeachment, do mendigo-gato e do último trending topic do Twitter, milhões de reais estão sendo despejados nas campanhas a despeito do fato dela não ter oficialmente começado e de boa parte da origem desses recursos ser ilegal.

Dia após dia as campanhas realizam grandes jantares “por adesão”, financiam adesivos para carros contra os concorrentes ou para a divulgação de grupos insuspeitos como os do “Amigo do Fulano” ( e o fulano, surpreendentemente, será candidato e usará exatamente esse nome como nome de urna), patrocinam blogs, páginas em redes sociais e compra de likes e a imprensa simplesmente não está prestando atenção a nada disso.


Mas o pior é que além de não ter mais recursos para fazer uma boa cobertura do processo eleitoral, é que muitas vezes a imprensa se deixa levar por teses equivocadas, como a do financiamento público de campanhas. Se você leu este texto até aqui deve já entender porque isso não vai resolver a existência de práticas ilegais nas disputas por cargos eletivos, né?

Com tudo isso, nós ainda não chegamos na história de como o dinheiro da Petrobras financiou o crescimento do PT em todo o país seguindo exatamente a mesma lógica que norteia todas as outras campanhas eleitorais: a compra de apoio político desde os menores municípios até o Congresso Nacional. Essa narrativa teria como clímax o fim do governo Dilma, não pelo impeachment, mas pela descapitalização do PT causada pelo corte de verbas das grandes empreiteiras que, envolvidas na investigação, passaram a deixar de alimentar os dutos do caixa dois do partido.

No entanto, se alguém perde dinheiro, de outro lado há quem o ganhe. E esse momento de transição é justamente isso que está acontecendo. O dinheiro de caixa dois não deixou de existir. Talvez ele possa até ter diminuído, mas ele ainda existe. E isso vai pautar as posturas do governo Temer, uma vez que ele, assim como a Dilma, precisa manter controle do Congresso para conseguir governar.

A única maneira de, efetivamente, reduzir o efeito dessas barganhas políticas no processo eleitoral e legislativo do país é aumentar a transparência e a vigilância. Isso significa ter mais veículos de comunicação, ongs, instituições dedicadas a esmiuçar cada detalhe do processo político do país o tempo todo, escancarando práticas ilegais.

Isso não significa só acompanhar a política. O jornalismo precisa ser mais relevante em outras áreas também. Ele precisa cobrir a iniciativa privada, o judiciário, a vida nas comunidades, os conselhos. Ele precisa ser a presença e a voz do cidadão onde ele não pode estar, ou pelo menos, não pode estar o tempo todo.

Da forma como estamos hoje, o que o jornalismo faz (para desespero e tristeza dos bons jornalistas por aí) é mostrar só um pequeno pedaço do problema. Só uma parte da história. E isso não é bom para ninguém, só para quem quer continuar a viver dos velhos esquemas.


Há luz no fim do túnel?

Watergate: será que o jornalismo das grandes investigações acabou?

Então a gente está num mundo no qual os jornais estão cada vez mais preocupados com cliques e nossa democracia precisa de cada vez mais vigilância. O que fazer?

Longe de mim querer ser a dona da verdade, mas me parece que temos que enfrentar alguns demônios (tanto dos jornais quanto de nós, leitores):

  1. Precisamos pagar pelo jornalismo de queremos: entrar numa página web é, de certa forma, gerar receita para um veículo. Mas a receita de publicidade online é tão, tão insignificante, que o jornal jamais vai se preocupar com você como leitor. Ele precisa de milhões de pessoas clicando o tempo todo. Você é só mais um.
    Se você quer um jornalismo mais comprometido com contar a melhor versão da verdade e menos distraído com memes e clickbaits, o melhor a fazer é começar a pagar. E nem é muito dinheiro.
    Claro que é muito melhor quando as coisas vêm de graça pra gente. Mas o fato é que, se você não pagar, alguém tá pagando. E é pra lá que vai a atenção de uma mídia cada vez mais desesperada por dinheiro.
    Não to dizendo que pagar significa assinar o jornal conservador da sua cidade. Você pode pagar pelo projeto independente que está fazendo uma campanha de financiamento coletivo. Pode assinar uma newsletter escrita por alguém bacana. Pode fazer uma contribuição para um blogueiro. Enfim, temos milhões de opções. Escolha a sua.
  2. Temos que parar de correr atrás dos espelhos brilhantes: cada vez que algo “viraliza”, ou uma startup parece ter sucesso ou algo chama a atenção, um exército de “consultores” que nunca tiveram um jornal, leram um jornal ou sequer sabem o que é jornal vende uma nova grande ideia para empresas dispostas em acreditar que há solução para a crise, uma luz no fim do túnel.
    E a imprensa, que deveria ser cínica e criteriosa com as informações que recebe, pula contente em mais um barco furado dos tais negócios digitais.
    O fato é: não dá para perder de vista o que é importante. Importante é jornalismo sério, inteligente, original, bem feito e que é legível para o público. O resto é perfumaria.
    Sempre que falo isso alguém corre dizer que as grandes reportagens dos últimos tempos não tiveram grandes audiências — ou seja, não viralizaram. Eu, nessas situações, me controlo para não perder a compostura e dizer que isso é de uma burrice IMENSA e explico que não dá para aplicar uma lógica de jornal do fim do século XIX e início do século XX (sabe aquele lance dos guris na rua gritando as manchetes dos jornais para vender?) ao jornalismo digital porque, ao contrário do jornal impresso, o jornal online não desaparece no fim do dia.
    O que isso significa? Que não dá para medir o sucesso de um conteúdo pela audiência imediata que ele conquista. É legal quando algo vai para o ar e recebe muito atenção de cara. Mas a vantagem do meio digital é que aquele conteúdo vai ficar para sempre ali, coletando audiência.
    Ou seja, o grande trunfo do jornalismo diário não é que ele emplaca no dia a dia e sim o estoque de conteúdo que ele tem. Mesmo que uma página seja aberta uma ou duas vezes num mês, numa coleção de milhares de páginas de um só veículo isso se traduz em milhões de cliques sem que a redação tenha que fazer absolutamente nada.
  3. Temos que abraçar os robôs: temos menos pessoas nas redações. Fato. Seria legal se isso se revertesse, mas não parece que será o caso no curto ou médio prazo. Então vamos pensar nisso de forma inteligente? Por que colocar uma pessoa inteligente, capacitada, talentosa para fazer conteúdos simplórios? Do tipo boletim de trânsito, previsão do tempo, calendário da rodada do campeonato?
    Eu sempre digo para meus alunos: programar é ser capaz de automatizar tarefas repetitivas. Isso nos libera para fazer coisas realmente interessantes. Só que para termos robôs bacanas que não passam para o leitor a impressão de que ele está sendo enganado quem tem que programar é o jornalista, não o cara de TI, que, convenhamos, raramente sabe escrever.
    O choro é livre.
  4. O jornalismo precisa abraçar os testes A/B e a possibilidade de errar: sabe uma coisa legal da internet? Se você tem uma ideia, qualquer ideia, pode colocar no ar uma versão da sua ideia e testar. Se o que você tá testando é algo que vai para o ar no site, já disponível para seu público, tudo bem. Dá para mudar, corrigir, melhorar as coisas o tempo todo.
    Desde que o Núcleo de Jornalismo de Dados da Universidade Positivo colocou no ar o site Nascer Bem, com dados sobre cesáreas e partos normais em Curitiba, o projeto já sofreu inúmeras alterações. A gente foi trocando o pneu com o carro andando, mas com a convicção de que cada vez o trabalhou melhorou.
  5. Temos que parar de pensar em um único produto e pensar em conteúdo: não dá para ter só uma vaca no pasto. Temos que, como jornalistas, pensar em quem vai pagar pelo quê. A tradição do negócio jornalístico vê isso com desconfiança, porque acredita que ter diferentes produtos significa canibalizar um em detrimento de outro. Só que na mídia digital, ter diferentes estratégias de monetização significa encontrar diferentes formas para que as pessoas paguem pelo produto que podemos oferecer.
  6. O negócio do jornalismo é informar e educar: a diferença entre jornalismo e entretenimento é que o primeiro tem foco no interesse público e o segundo no interesse do público. Querer fazer o jornalismo virar entretenimento é quem nem ser o Tio Sukita: é ridículo. O que não significa que não podemos ser interessantes e divertidos. A questão é: a que serve essa “diversão”?
  7. Por fim: sem jornalismo não existe democracia. Não podemos jamais esquecer disso.
Categories: jornalismo política

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