Caixa dois é o termo usado para o dinheiro que é usado nas campanhas políticas, mas que não é contabilizado legalmente. Ou seja, não sabemos nem a origem, nem o destino desses valores. É o dinheiro que é usado para ações de campanha que muitas vezes são ilegais, como a compra de votos, a entrega de brindes e presentes a eleitores e o pagamento de gráficas e agências que coordenam tais ações.

Boa parte do dinheiro desviado de instituições públicas tem como destino o caixa dois dos partidos. É ele que financia a maior parte das campanhas e, principalmente, as ações de campanha que são feitas fora das regras e fora do prazo legal. No papel, a propaganda eleitoral só pode ser veiculada durante 45 dias antes do pleito, mas o caixa dois financia uma emissão permanente de mensagens que não respeita esse período.

O grande desafio em fiscalizar e documentar o uso de caixa dois é que ele é gerido de forma a não produzir documentação. Em bom português: se eu ganho R$ 10 mil por mês dos quais R$  mil não tem nenhum tipo de registro, para gastar esse dinheiro sem que a Receita Federal descubra preciso usá-lo em pagamentos que não gerem recibos, registros no meu nome.

Explico: se alguém ganha R$ 10 mil por mês, recebe, no total, R$ 120 mil no ano. Se essa mesma pessoa comprar um carro de R$ 80 mil à vista, o bem vai ser registrado no nome dela, de forma que ela passará a ter um bem de R$ 80 a declarar. Como só R$ 3 mil entra no meu caixa com registro, no fim de um ano eu tenha uma renda declarada de R$ 36 mil. Ou seja, a menos que eu consiga justificar a origem dos outros R$ 44 mil, a compra do carro de R$ 80 mil é incompatível com a minha renda.

(Isso, claro, sem considerar que eu possa ter outras despesas)

Fake news

Para poder usar o dinheiro do caixa dois sem levantar suspeitas, o candidato ou grupo de interesse precisa encontrar formas de promover algo sem que isso gere um registro. Um item comum na divulgação de candidatos é material impresso – adesivos, santinhos, panfletos. A legislação eleitoral obriga os candidatos a registrar no material a tiragem e a gráfica de origem como forma de facilitar a fiscalização. Isso porque era comum o dinheiro de caixa dois ser usado para pagar tiragens maiores do que o material declarado pelos candidatos.

No entanto, é fácil de se identificar que um santinho é de determinado candidato. Porém, aqui estamos falando de fake news, ou seja, a divulgação de informações falsas e/ou temas de interesse de um determinado público. Um exemplo: a redução da maioridade penal. Digamos que essa seja uma das bandeiras de um candidato. Ele não pode divulgar seu nome agora, mas pode-se comprar uma estrutura capaz de promover essa agenda, a da redução, sem qualquer link com o candidato.

Como? Primeiro se estabelece uma rede de sites, perfis em redes sociais e blogs. Essa rede serve a dois propósitos. Primeiro a troca de links entre eles confere autoridade aos artigos publicados. Isso porque links são uma das métricas usadas pelos algoritmos de mecanismos de buscas para classificar um conteúdo. Segundo, a presença de um mesmo assunto em mais de um lugar dá a falsa impressão de que o assunto está ganhando adesão, não é só mais uma voz solitária.

Segundo, cria-se uma estrutura que monitora palavras-chave e desenvolve conteúdo sob medida para se classificar bem nos resultados de busca. Conteúdo é algo essencial para conferir relevância a um site. Mas mais do que publicar textos, essa estrutura se dedica a criar conteúdo que vai estimular o que se chama de engajamento (alto índice de likes, shares e comentários nas redes sociais, bem como interação na própria página). Aqui não se trata de criar bom conteúdo e sim qualquer coisa que estimule a raiva, empolgação, revolta no público, porque é isso que potencializa a interação.

Por fim, há a compra de robôs e ferramentas que simulam interação com esses conteúdos todos. No mundo ideal, um conteúdo é colocado na web e pode ou não “viralizar”. Uma vez que isso aconteça, a tendência é que ele vá ganhando mais atenção, já que o interesse que ele já conquistou serve de “voto de confiança” para os algoritmos exibirem ele para mais pessoas.

Mas se há dinheiro não é preciso esperar que essa audiência venha. Você pode simular ela, usando robôs.

Caixa dois no submundo da internet

Nem todos os recursos listados acima são o que se pode chamar de “negócio respeitável”. Quem faz isso (em especial a aplicação de código para fingir interação e audiência), faz nos bastidores. E usa formas de cobrança que permitem o uso de recursos sem registro, inclusive dinheiro guardado em contas no exterior.

Isso é um prato cheio para quem opera um caixa dois. Porque não há nada que denuncie o envolvimento desse dinheiro com essa ação. Primeiro porque anúncios promovidos no Facebook, por exemplo, podem ser destinados a grupos tão específicos que o anunciante pode prevenir que eles apareçam para quem pode ter interesse em denunciar.

Veja o tamanho do problema: se alguém compra um outdoor para apoiar a Lava Jato, ele fica ali visível para todos. O que eventualmente pode ser investigado. Mas se eu compro posts promovidos no Facebook, posso promovê-los só para pessoas cujo perfil indica adesão a determinada causa e que vão receber esse conteúdo sem questioná-lo, enquanto não será possível contabilizar quantos desses anúncios estão sendo feitos e pagos.

Além disso posso diluir o investimento em várias páginas e blogs diferentes, o que dispersa a atenção que esse dinheiro todo pode atrair.

Trump e os russos

Isso que eu estou descrevendo não é teoria da conspiração nem viagem na maionese. É o que aconteceu na eleição americana. Inclusive com a cooperação de agentes russos. Ou pelo menos é isso que está sendo revelado nas investigações sobre o assunto.

Dito isso, o que podemos fazer? Continue de olho no blog para acompanhar o assunto.

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