A entrevista é uma matéria-prima importante do trabalho jornalístico. No trabalho de apuração, conversar com fontes – sejam elas autoridades no assunto tratado, autoridades públicas, testemunhas oculares, analistas ou personagens – é essencial. No entanto, tanto os repórteres quanto os entrevistados padecem do mesmo mal: a humanidade, com todas as suas falhas.

O relacionamento entre duas pessoas, mesmo que profissional e momentâneo, dificilmente pode ser regulado por normas rígidas de controle. Não que o ser humano não tenha tentado. Departamentos de recursos humanos, juristas, médicos e outros profissionais já labutaram na tentativa de determinar parâmetros para essa relação tão complicada. Mas assim como os seres humanos são complexos, o relacionamento entre eles também é.

É ciente dessa complexidade que o repórter conduz o trabalho de se relacionar com pessoas. Mesmo as matérias mais complexas, técnicas envolvem seres humanos, o que nos faz concluir que o relacionamento com elas é obrigatório dentro do trabalho jornalístico.

Para o jornalista, as pessoas são fontes: ou seja, alguém que pode fornecer informações que irão, ou não, ajudar a compor uma reportagem. A princípio, trata-se de um relacionamento com objetivos claros: o repórter pergunta, o entrevistado responde e o repórter transforma a resposta em material para a reportagem.

Para o repórter, fazer uma entrevista não significa se comprometer com o relato do entrevistado. Este é apenas uma entre várias fontes ouvidas, isso sem considerar os dados que o jornalista possa ter em mãos. O compromisso do repórter com a fonte engloba o seguinte:

  • precisão na reprodução das opiniões e dados oferecidos pelo entrevistado
  • respeito
  • direito de resposta

No entanto, muitas vezes no trato com as fontes o repórter se depara com outros tipos de compromisso. É o caso do off – off the record. O off é uma informação que pode ser publicada, mas sem ser creditada à fonte. Ao “invocar” o off, a fonte estabelece esse compromisso tácito de proteção, ou seja, o repórter não pode revelar a origem da informação. Por outro lado, o repórter deve confiar na veracidade da informação.

Porém, a natureza do off permite que a fonte se sinta livre para abusar dessa confiança. Isso faz com que esse instituto seja utilizado, muitas vezes, para fazer o repórter de “garoto de recados”, de “laranja”. Protegida pelo sigilo, a fonte pode plantar na imprensa boatos, informações falsas e até mesmo acusações, muitas vezes com o objetivo de se promover, de atacar adversários ou de obter vantagens ou lucros pessoais.

A proximidade do repórter com a fonte também provoca o que se chama de fontismo, ou seja, a adesão do repórter às teses do entrevistado. Ao confiar, às vezes cegamente, na fonte, o repórter se deixa levar pela informação que recebe, sem cumprir seu dever maior, que é com a verdade e com o interesse público.

Essa proximidade pode levar o repórter e a fonte a confundir um relacionamento profissional, com objetivos claros, com amizade. Isso é prejudicial a qualidade do trabalho do jornalista já que permite que interesses pessoais (seja o do repórter de manter a amizade, a proximidade com a fonte, seja da fonte de manter o canal de acesso à imprensa) interfiram na capacidade do profissional de avaliar a informação que recebe.

Se aplicarmos o pensamento científico ao relacionamento do repórter com a fonte, temos que permitir que as informações recebidas sejam submetidas a testes de veracidade. Elas precisam ser colocadas à prova, expostas ao escrutínio. Esse processo nem sempre agrada à fonte, mas atende à necessidade jornalística de se garantir a qualidade da informação.

O problema é que as vezes o jornalista se deixa seduzir pela importância da fonte, pela proximidade com o poder, pela possibilidade de obter ganhos pessoais, entre outras razões igualmente equivocadas. E deixa de lado sua missão maior: que é descobrir a verdade e atender ao interesse público.

Para se proteger desse risco, o repórter deve submeter o próprio trabalho ao escrutínio do público. Como? Sendo transparente, apontando o caminho percorrido para obter as informações apresentadas e evitando envolver o trabalho jornalístico num manto de mistério.

O chamado paper trail – ou seja, a exposição do caminho feito na apuração da matéria – permite que o leitor possa avaliar não só os dados apresentados, mas também o contexto no qual eles se inserem.

Isso não significa, no entanto, que o repórter não pode proteger uma fonte, quando necessário. O sigilo da fonte é um direito do jornalista. Mas sua utilização deve ser exceção. O sigilo pode ser usado quando a informação é de interesse público, mas sem a proteção da fonte não poderia chegar ao público.

Nem sempre esse tipo de informação é dada em off. Ela pode também ser fornecida em deep background, ou seja, uma informação cujo conteúdo não pode ser revelado, mas é usado na apuração da matéria. A fonte mais famosa da história do jornalismo a usar esse recurso é o homem que ficou dezenas de anos conhecido apenas como Deep Throat – Garganta Profunda e que ajudou Carl Berstein e Bob Woodward a elaborar a série de reportagens que ficaram conhecidas como caso Watergate.

As informações repassadas pelo Garganta Profunda aos jornalistas não foi usada diretamente na matéria, nem a existência dessa fonte foi revelada pelos autores aos leitores do jornal. Mas elas foram de fundamental importância para que a história por trás da invasão do comitê democrata no edifício Watergate fosse desvendada.

Quem quiser ler mais sobre essa relação tão importante pode procurar o livro O homem secreto, do Bob Woodward, que conta a relação dele com o Garganta Profunda (é interessante ler também Todos os homens do presidente, que é sobre o Watergate).

Outra excelente leitura sobre o assunto é O jornalista e o assassino, de Janet Malcolm.

Categories: foca jornalismo

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