Esse artigo é sobre o Facebook, mas começo com o seguinte: estou relendo essa semana Radium Girls, sobre as mulheres que trabalhavam com tinta a base de rádio na pintura de painéis e relógios. Na época, no início do século XX, o elemento químico rádio era visto como uma maravilha da ciência, um bálsamo para a saúde. Mas o contato com o produto deixou as mulheres muito doentes (e matou muitas dolorosa e precocemente), no entanto demorou anos para que se reconhecesse que o mal vinha do rádio.

Dá para a gente fazer um paralelo dessa história com o uso das redes sociais hoje e o problema (grave) das fake news. Desde 2016, com o resultado desastroso das eleições presidenciais nos EUA, estamos vendo o início de uma desilusão com as redes sociais, em especial o Facebook. A mesma ferramenta que teria viabilizado a vitória de Barack Obama em 2008 parece ter sido instrumental no clima que culminou com a eleição de Donald Trump.

Antes do desfecho da disputa de 2016, no entanto, as redes sociais eram vistas por diferentes grupos ideológicos como um lugar bom, que permitia a mobilização social, a divulgação de informações que não encontrariam espaço na estrutura tradicional da mídia. A internet como um todo gozou durante anos da fama de veículo de comunicação verdadeiramente democrático.

A ilusão acabou.

Desencanto com o Facebook

Se você é uma pessoa informada deve saber que desde a eleição do Trump nós já aprendemos que os russos usaram o sistema de seleção e direcionamento de anúncios do Facebook para mostrar diferentes mensagens para diferentes grupos. Para reagir às criticas, o Facebook tem alterado seu algoritmo e as formas como as pessoas interagem no site. No último anúncio feito pela imprensa, a novidade foi o fim de conteúdo “noticioso” na timeline e a priorização de interações pessoa/pessoa.

Isso, no entanto, não altera o grande problema estrutural da rede social: a interação baseada em reações e engajamento simplista. O site todo funciona e faz sucesso ao promover no usuário uma busca incessante pela aprovação e atenção do outro. Você pode negar enfaticamente, mas o efeito dos likes e comentários na psique humana é profundo e pernicioso.

E isso, estamos percebendo, supera as vantagens do Facebook (ou qualquer outra rede social) como espaço de mobilização social. Primeiro porque o like estimula a resposta rápida, a expectativa de gratificação instantânea (você posta e já começa a acompanhar as reações ou falta delas). Esse sistema de feedback privilegia discursos e conteúdos contundentes, mas a democracia, como se sabe, está na capacidade de debate e diálogo.

É como Neil Postman já alertava nos anos 1980: a estrutura da tevê não favorece o debate intelectual e sim a simplificação da informação. Na internet, sites sociais favorecem o radicalismo, a convergência de de opiniões e não a troca de ideias.

O Facebook (e o Google) também acabou com algo fundamental para que a internet fosse, de fato, espaço democrático: a navegação anônima. Ao logar nesses serviços você fornece informações importantes sobre quem você é e o que você faz, pensa, como reage. Isso permite o rastreamento de grupos sociais e até mesmo a perseguição de inimigos políticos.

Foi isso que permitiu que russos e outros grupos de interesse anunciassem na rede social só para, por exemplo, pessoas que odeiam judeus, supremacistas brancos e outros grupos cuja existência não é tolerada nem pela lei, nem pelo bom senso, mas que prosperam na internet.

Para o Facebook essa coleta incessante de dados sobre os usuários serve a um propósito comercial: ajuda a vender mais anúncios. Mas para rentabilizar isso, a rede entrega essas informações na mão de terceiros que possuem tempo e dinheiro para explorar as possibilidades que isso representa.

Grosso modo: para você a informação de que seu vizinho apoia a violência policial pode significar pouco ou quase nada. Mas na mão de quem tem dinheiro e um objetivo político, isso pode ser usado para alimentar diariamente o seu vizinho com informações (muitas vezes falsas) que reforcem a convicção dele e eventualmente a conecte com um candidato ou movimento político.

Exagero? Foi exatamente isso que a campanha do Trump e os russos fizeram. E mais: com a ajuda de profissionais do Facebook e do Twitter, que chegaram a trabalhar lado a lado com a equipe de campanha do candidato republicano.

Facebook: qual a solução?

Sair do site. Claro, você não quer ouvir isso. Mas é o que devemos fazer. O uso de redes sociais é pernicioso para a democracia, para a saúde mental do usuário e para a comunidade. A empresa pode até mexer no algoritmo e jurar que vai resolver seus problemas, mas o fato permanece: na essência é isso que a interação social na internet é e nunca vai deixar de ser.

Mas se prepare. Sair do Facebook não é uma tarefa fácil. Foi isso que eu fiz ano passado, em novembro. Começa pelo processo de exclusão da conta. O Facebook estabelece um prazo de até 90 dias para que, a partir do seu  pedido de exclusão do perfil, ele seja excluído de fato.

Mas não pense que nesse período eles vão te deixar em paz. Ao pedir a exclusão você deixa de ter acesso à sua conta, mas continua recebendo alertas de notificações num ritmo muito mais intenso do que quando você tinha um perfil ativo. Aparentemente o algoritmo do site identifica seu pedido de exclusão e passa a querer te convencer de que há muita coisa boa acontecendo lá.

Mais do que isso, o Facebook estabelece que você pode tentar logar na conta, mas aí alertado do seguinte: se você confirmar que quer logar, o processo de exclusão é suspenso. Ou seja, você pode ver as notificações, mas desiste da exclusão. Se voltar a pedir a exclusão, começa tudo novamente. Entende a pegadinha?

Você pode optar por, ao invés de excluir a conta, só suspender, mas o problema é o mesmo. O site vai te encher de notificações para te forçar a acessá-lo novamente. A internet está cheia de relatos de que muitas dessas notificações são requentadas ou simplesmente coisas que de outra forma não apareciam para você (um comentário de uma pessoa com quem você pouco interage, por exemplo).

Por fim, mesmo que você exclua teu perfil, nem tudo que você postou no site some. Mensagens privadas, por exemplo, continuam disponíveis para o seu interlocutor. Postagens em grupos também.

Mas o problema é só o Facebook?

Não. A lógica de remunerar nosso desejo natural por atenção está em outras plataformas. Em especial, outras que são do Facebook, como o Snapchat e o Instagram. As pessoas mais jovens estão saindo do Facebook, mas estão migrando para essas outras ferramentas tão perniciosas quanto, o que significa que a necessidade de supervisão e crítica a esses sites/aplicativos é permanente, em especial quando o usuário é criança ou adolescente.

É importante que a postura crítica do usuário em relação ao Facebook migre também para a internet como um todo. Se a história toda das fake news pode ter um efeito benéfico é fomentar nas pessoas um cinismo e o fim do deslumbramento com a mídia, o que é um passo fundamental para que se consuma essa mídia com bom senso.

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