Há algumas coisas que assombram pais em todo lugar. A perspectiva de ter um filho viciado em drogas ou envolvido com atividades criminosas. Ver um filho morrer. Assistir seu filho sofrer com agressões de outros. Certamente não há receitas para impedir que coisas ruins aconteçam com eles. Sabe-se que famílias desestruturadas e a submissão da criança a situações de risco aumentam as chances deles terem problemas no futuro. Mas e o bullying? Será que estamos falhando em prepará-los para isso? O bullying é inevitável?

Se você deixou ou vai deixar seu filho ainda criança ou adolescente criar um perfil em uma ou várias redes sociais, é bom repensar algumas coisas. Colocar crianças e jovens nesses sites e aplicativos é criar condições para deixá-los vulneráveis ao bullying. O melhor que um pai ou mãe pode fazer, é impedir esse uso.

Por quê? Vamos lá:

É da natureza do amadurecimento humano que isso resulte em conflitos. Na adolescência, em especial, é natural que o jovem se coloque em situações que o deixem frágil. Ele vai se apaixonar, vai ganhar espinhas, ser gordo, magro, bom ou ruim em esportes, ter amigos, ou não. A adolescência é um rompimento com a infância e a construção do que vai ser, lá na frente, a vida madura.

Como toda mudança, essa não acontece sem altos e baixos. O jovem é imaturo, está submetido a um turbilhão de emoções e hormônios e ainda não sabe muito bem quem é. Ou seja, é uma fase difícil. Sempre foi.

Redes sociais e o direito ao esquecimento

Outro dia meu filho começou a ver um vídeo de duas meninas de 9 anos, irmãs gêmeas, no Youtube. As meninas, crianças ainda, explicavam para o público delas (que é de milhares de pessoas) que um vídeo que as mostravam falando palavrões era falso e não representava o espírito do canal delas.

Pensem bem: duas meninas de 9 anos estavam sofrendo com conteúdo falso produzido sobre elas e distribuído para uma audiência de milhares de pessoas que as “conhece” (entre aspas, porque não se conhece ninguém só de ver um canal no Youtube).

Agora pense que você, pessoa adulta, está nessa situação. Imagine receber centenas de mensagens de todo gênero te criticando, agredindo, elogiando e comentando algo que você não fez, mas fingiram que você fez. Pense aí por um minuto.

Pensou?

Alguns de vocês podem pensar: eu não me abalaria. Sério? E aquela vez que você ficou bravo ou mal-humorado porque alguém fez um comentário que pareceu grosseiro num post seu? E se uma pessoa completamente estranha te parasse na rua e comentasse algo sobre a tua vida? Você ficaria tranquilo?

Pois bem, uma criança, um adolescente é alguém cujas defesas mentais ainda não estão totalmente formadas. Eles estão testando e aprendendo a navegar pela sociedade, a entender o que é aceitável e o que não é. Ou seja, elas são muito mais suscetíveis a serem afetadas pela ação do outro.

E pior: elas são mais suscetíveis a aprender que devem se importar e determinar seu valor próprio pelo outro e não por elas mesmas.

Padrão de comportamento

Agora me diga: que tipo de comportamento social redes como o Facebook e o Snapchat fomentam? O que depende muito da reação dos outros e que nos remunera quando fazemos “sucesso” e nos condena quando não somos populares. Esse é jeito bem efetivo de ensinar as crianças e jovens a pautar suas emoções pela aprovação do outro.

Já pensou em quanto isso as deixa vulneráveis ao bullying? Já perdi a conta das vezes em que ouvi especialistas e pais dizendo que é preciso conversar com as crianças para fazê-las entender que quem está errado é quem faz o bullying, ajudar nossos filhos a ter uma auto-estima saudável e fazê-lo enfrentar o agressor. Parece simples. Não é.

Primeiro que qualquer pais/mãe sabe que falar é muito menos efetivo do que fazer. Você pode dizer mil vezes para o seu filho não falar palavrão. Mas se você mesmo fala, seu exemplo é muito mais forte e efetivo que qualquer discurso.

Então não adianta falar que precisamos não dar valor ao que o agressor diz se, ao mesmo tempo, validamos o tempo todo a ideia de que é bom ter a validação do outro. Comemoramos os likes e views nos canais de nossos filhos no YouTube, postamos fotos deles e ficamos exultantes quando elas fazem sucesso. E, mais ainda, paramos atividades em que o convívio é extremamente importante (como uma ida ao parque em família) para fazer fotos e postá-las instantaneamente nas redes sociais, como se isso fosse importante para validar aquela experiência.

Como é que, fazendo tudo isso, a gente vai convencer uma criança ou jovem que não, ela não deve valorizar a ação do outro em relação a elas?

E sabe o que isso tudo acarreta? Depressão, ansiedade.

Exposição pública

Outro problema grave das redes sociais é que elas criam uma interação artificial e estranha entre as pessoas. Como professora universitária, convivo diariamente com jovens que apresentam dois comportamentos estranhos entre si. Por um lado, eles relatam coisas rotineiras e íntimas o tempo todo na internet e parecem estar num diálogo permanente com o mundo que você nem sabia que existia. Por outro, são extremamente resistentes a se aproximar e falar com quem quer que seja, seja pessoalmente ou por telefone.

Esse é o comportamento de alguém que se acostumou a lidar com o mundo com uma proteção extra, a intimidade e solidão do teclado do computador (ou do celular, que no caso, é mais comum). No entanto, essa sensação de proteção é falsa. Extremamente falsa.

A verdade é que estar na rede amplifica coisas que, de outra forma, são irrelevantes. Sabe aquele comentário infeliz (e levanta a mão aqui quem nunca fez um) que você soltou num papo com os amigos? De repente ele vai parar num ambiente público e submetido ao julgamento de pessoas que 1) não tem conhecem e 2) não sabem o contexto. E sim, o contexto importa.

Em Humilhados, Jon Ronson vai atrás de pessoas que sofreram a humilhação extrema de serem expostos e destruídos na internet. Uma delas, a relações públicas Justine Sacco, perdeu o emprego depois de ter publicado um tweet racista num vôo para a África.

Justine Sacco: tweet infeliz acabou em demissão

Claro que o tweet dela é uma tremenda de uma bobagem que uma mulher adulta como ela jamais deveria ter proferido. No entanto, vamos pensar o quanto o destino dela é injusto (ela se desculpou inúmeras vezes publicamente) se considerarmos o quanto outras ações muito piores passam impunes. Mas ela falou o que falou no Twitter, e a internet não esquece.

A não ser, é claro, que você tenha dinheiro para fazê-la esquecer (mas isso é assunto para outro texto).

O livro de Ronson é uma boa leitura para pais e jovens. Porque mostra que essas pessoas não eram particularmente ruins ou tolas, mas erraram e sofreram consequências graves pelo erro.

Colocar jovens nas redes sociais é colocá-los a um passo de um erro como esse. A adolescência é um período em que deveria ser permitido errar. É quando tomamos nosso primeiro porre. Alguns experimentam drogas, outros fazem sexo com estranhos. Ou aderem a religiões, cultos, grupos sociais. Na maior parte das vezes, essa experimentação acontece e termina na adolescência e termina quando o jovem vai começando a ficar mais seguro da própria identidade.

Mas e se essas tolices da juventude ficarem para sempre registradas publicamente?

Ilegalidade

Por fim, é importante que a gente tenha consciência de que deixar uma criança criar um perfil nas redes sociais é algo menor. Não é. A adesão a qualquer serviço digital exige a assinatura de um contrato. E, pela lei brasileira, crianças não pode assinar contratos antes dos 16 anos e, entre os 16 e 21 anos precisa ser emancipado ou acompanhado de um adulto responsável.

A saída, para muitos, é aderir a uma rede social mentido a idade. Como não há conferência, crianças de 8, 9 anos já estão no site com perfil próprio. Ao fazer isso, elas aceitam condições que nem são capazes de entender, quem dirá respeitar.

Além disso, o uso de ferramentas online exige um cuidado com a segurança dos dados. Algo também difícil para crianças e até mesmo para adultos. Para ter uma conta no Facebook, por exemplo, o usuário precisa de um email. Ao usar email e o perfil sem um cuidado adequado com as senhas, o usuário fica sujeito a ver esses dados serem usados por hackers.

Com a interligação de sites, o perfil numa rede social abre a possibilidade de uso de outros serviços online (o famoso login usando o perfil na rede), ou seja, a criança não só mente a idade no contrato da rede social, como passa a ter acesso a outros serviços, muitos dos quais com restrições de idade, a partir da mesma mentira.

Parece uma bobagem, mas não é. Primeiro porque, ao mentir, a família desobriga a rede social de proteger aquele usuário. Segundo porque, mesmo com aplicativos de limitação à navegação na web, conter o acesso a conteúdos impróprios é como secar gelo: impossível.

Você acredita que o uso das redes sociais não é tão perverso? Ou tem problemas para impedir o uso pelo seu filho? Escreva para nós. Quero ouvir a sua história

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