Mais uma vez a gente se vê diante da denúncia, por grupos conservadores, de ações que, dizem, promovem a pedofilia. O último caso (no momento em que escrevo esse texto) aconteceu no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Deixando de lado a agenda conservadora promovida por grupos políticos como o MBL (Movimento Brasil Livre), o fato é que a pedofilia evoca um medo real de pais e mães de verem seus filhos como vítimas. Mas será que o homem nu numa exposição artística representa um risco para as crianças?

Uma publicação do National Center For Missing and Exploited Children de 2010 aponta que até a década de 1960, a população americana e a mídia daquele país se concentrava no chamado “estranho perigoso”. Ou seja, o mito do abusador desconhecido que aproveita a distração de pais e responsáveis para atacar crianças em atividades tão banais quanto ir ao parquinho do bairro.

A  partir da década de 1970 é que casos de grande repercussão começaram a dar visibilidade ao agressor que mora dentro de casa, que é amigo da família. Muito embora os dois tipos de criminosos existam, os pesquisadores Emily M. Douglas e David Finkelhor da University of New Hampshire apontam que mais da metade dos abusadores de crianças são pessoas próximas as vítimas. E um terço é composto por pessoas da própria família.

No entanto, o mito do “estranho perigoso” persiste, apesar desse tipo de criminoso só representar entre 7% e 25% dos casos.

Pedofilia e abuso sexual

A agressão sexual a crianças é um assunto complexo. Mas também é relativamente simples. Crianças são vítimas porque têm pouco com que se defender. E muitas vezes, apontam trabalhos como os de Douglas e Finkelhor, o estupro é um crime de poder, não de sexo. Mas o uso de terminologia inadequada confunde as coisas.

É que a pedofilia é a doença de quem tem fantasias sexuais persistentes com crianças. Nem todo pedófilo perpetua crimes contra crianças. Muitos satisfazem o próprio desejo se relacionando com adultos com características infantis, consumindo pornografia infantil (o que constitui crime também) ou mesmo realizando fantasias sexuais com bonecas ou prostitutas que simulam a presença da criança.

Já o abusador é o que pratica violência sexual contra a criança. O relatório da Missing and Exploited Children aponta que cerca de 25% dos molestadores de crianças consumiram material pornográfico com menores de idade, mas não há um dado conclusivo sobre o percentual de pedófilos que realmente comete atos de violência contra crianças. Ou seja, o agressor sexual não é necessariamente alguém cujo desejo é focado na criança. O que acontece é que a criança acaba sendo vítima do crime sexual por ser mais facilmente dominada.

É aí que a tese do “estranho perigoso” acaba sendo perigosa. Porque o criminoso sexual procura uma vítima a quem tem fácil acesso e contra quem pode exercer força e poder. Por isso a tendência dele ser alguém próximo e não um desconhecido.

Abusadores são homens jovens

Dados sistematizados por Emily M. Douglas e David Finkelhor da University of New Hampshire mostram que 90% de quem comete crime sexual contra crianças são homens. E mais de 40% tem até 30 anos. Entre 78% e 89% das vítimas são meninas, a maioria de famílias pobres.

A razão? Crianças pobres estão mais sujeitas a situações de risco, aumentando a possibilidade de aproximação de adultos criminosos. Segundo os pesquisadores, é comum a criança vítima de abuso estar numa família com outros problemas como alcoolismo, ausência de um ou dos dois pais e violência marital.

Quem são as vítimas?

Outra grande dificuldade dentro do tema abuso sexual de crianças é estimar o percentual de vítimas. Crimes sexuais são tradicionalmente pouco registrados. Além disso, há uma dificuldade da própria vítima em identificar o abuso. Segundo os dados sistematizados por Emily M. Douglas e David Finkelhor, “em geral são considerados abusos os casos que envolvem uma vítima criança e um perpetuador adulto. Mas há casos de crianças abusadas por adolescentes e que acabam não sendo contabilizados nas estatísticas”.

Os pesquisadores apontam que nos dados dos Estados Unidos há uma estimativa de 9% a 28% de mulheres adultas que declaram ter sido vítimas de abuso na infância. Em 2003, cerca de 78 mil casos de abuso contra crianças foram registrados, o que significa que 1.2 a cada 1.000 crianças foram vítimas de abuso naquele ano.

“Uma meta análise de 22 estudos americanos, feitos a partir de amostras nacionais assim como dados locais e regionais, apontam que entre 30% a 40% de meninas e 13% de meninos vivenciaram abuso sexual na infância. A análise de dados internacionais de 169 estudos encontrou o índice de 25% de mulheres vítimas na infância e 8% de homens. Essa mesma análise indica que na América do Norte a faixa de vítimas fica entre 15 a 22% da população”

Como prevenir?

Os dados sobre abuso apontam que a maneira mais efetiva de prevenir esse crime é garantir a proteção da criança. Isso significa promover uma vida familiar saudável e pais presentes, bem como uma rede de proteção que inclua professores, médicos, assistentes sociais capazes de identificar e atender casos de abuso.

No entanto, para os pais, o homem nu numa exposição parece uma ameaça mais fácil de prevenir do que o amigo, familiar agressor. A Missing and Exploited Children aponta que no caso do “estranho perigoso”, a prevenção se dá na clara separação entre o bem (a família) e o mal (o estranho). Mas no abuso que ocorre dentro de casa as dinâmicas familiares complexas tornam essa separação muito mais complicada.

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